
O presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, reconheceu a importância da agenda de inovação no setor financeiro, mas apontou “excessos” na abertura do mercado de fintechs nos últimos anos. Para o executivo, apesar de haver benefícios, no médio e longo prazo aparecem os “problemas estruturais”. Maluhy defendeu um “freio de arrumação” que, segundo sua visão, está em curso na atual gestão de Gabriel Galípolo à frente da presidência do Banco Central (BC).
As declarações foram dadas em entrevista ao jornal Valor Econômico, durante o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), do qual Maluhy participou ao longo desta semana.
Perguntado sobre o cenário da regulação das fintechs, defendeu a competição, mas ressaltou a necessidade de regras proporcionais para instituições com as mesmas atividades. “A gente é super a favor da competição e acho que o banco se transformou ao longo desses anos graças à nova competição e à competição que sempre houve no sistema financeiro. A disputa não se dá criando barreiras para a competição. Não é nisso que a gente acredita. Precisamos ter as mesmas condições”, afirmou.
Na avaliação de Maluhy, “houve, sem dúvida, um excesso” na abertura do mercado de fintechs. Para o presidente do Itaú, é preciso que haja capacidade de a supervisão acompanhar a evolução dos novos entrantes. Segundo ele, esses players não necessariamente precisam ter as mesmas regras que os grandes bancos. “Defendo muito que a gente tenha as mesmas regras para as mesmas atividades e proporcionalidade”, argumentou.
O executivo apontou, ainda, a preocupação do BC com o aumento das fraudes e a entrada de “recursos não convencionais” no sistema financeiro.
“A gente fala das fintechs, desses bancos que estão sendo liquidados. Naturalmente, existe um freio de arrumação que precisa ser feito. A gente está diante de um freio de arrumação agora, que coincidiu com o mandato do Gabriel Galípolo”, disse Maluhy.
O presidente do Itaú comentou também sobre o avanço da Inteligência Artificial (IA). Para ele, a sensação é de que não estamos diante de uma bolha da IA. “Agora, vai depender muito da capacidade de a Inteligência Artificial ser escalável no mundo todo”, disse Maluhy. De acordo com o executivo, com o uso dessa tecnologia, o Itaú vem conseguindo melhorar a produtividade, a experiência do cliente, assim como ganhar velocidade. “A gente quer estar na vanguarda disso.”
CDB do Master e FGC
Na entrevista, Maluhy abordou a crise do Banco Master e a recomposição do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), destacando a “assimetria” nos incentivos entre distribuidores e os riscos do FGC. Ele citou, ainda, que o Itaú “nunca distribuiu” um CDB do Master. “Sempre tivemos nosso processo de curadoria e entendemos que não era o caso de distribuir o produto, apesar da taxa e das comissões elevadas”, afirmou o executivo.
Em sua visão, o evento envolvendo o banco de Daniel Vorcaro é de “magnitude muito relevante”. Maluhy mencionou um volume de aproximadamente R$ 55 bilhões que o FGC precisará desembolsar, considerando o que já foi liquidado, a linha de assistência de liquidez do fundo e o caso mais recente do Will Bank. “O FGC tem por volta de R$ 120 bilhões de patrimônio”, disse o presidente do Itaú.
Em relação à recomposição do fundo, Maluhy afirmou que o FGC tem suas regras e governança própria.
“Em todo esse processo, os bancos não têm nenhum tipo de participação. A gente é um grande contribuinte do FGC. Esse é o arcabouço, são os técnicos que vão lidar com o tema”, apontou. “É evidente que tem conversas acontecendo para discutir cenários, como fazer o ajuste às contribuições”, complementou.
O executivo defendeu, ainda, um trabalho conjunto de BC e FGC no sentido de criar mecanismos para suavizar os impactos, para que o efeito sobre os tomadores de créditos seja o menor possível. “Esse é o grande objetivo, porque a conta é muito grande e vai ser paga. É preciso suavizar o impacto para que não onere o tomador de crédito e o depositante”, argumentou Maluhy.
Na entrevista, o presidente do Itaú abordou o cenário para o mercado de crédito, as incertezas sobre as eleições presidenciais no Brasil e os principais desafios para o próximo governo.
‘Disneylândia’ das fintechs
No Fórum Econômico Mundial, Maluhy não foi o único banqueiro brasileiro a lembrar das fintechs em suas declarações. André Esteves, presidente do Conselho de Administração do BTG Pactual, definiu o Brasil como uma “Disneylândia” para fintechs.
O executivo defendeu regras proporcionais ao risco de cada instituição. “Se você tem o mesmo serviço, e o mesmo risco, precisa ter a mesma regulação. E hoje acho que não tem”, disse ele, segundo reportou a CNN Brasil.