Imagem: Canva
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Durante anos, a discussão sobre cibersegurança no setor de meios de pagamento foi conduzida quase exclusivamente sob a ótica da proteção de dados e do cumprimento regulatório. Esses elementos seguem sendo relevantes, mas pesquisas institucionais independentes indicam que o risco mais crítico para as processadoras de cartão hoje está em outro ponto: a continuidade operacional e a integridade dos fluxos de pagamento.

Em um ecossistema altamente integrado, no qual há processamento de milhões de transações em tempo real, falhas de disponibilidade, fraudes persistentes e fragilidades na governança de acessos geram impactos financeiros imediatos e efeitos sistêmicos sobre todo o mercado.

Indisponibilidade

A indisponibilidade de sistemas de pagamento deixou de ser um incidente isolado para ser vista como um risco sistêmico. Documentos do Bank for International Settlements (BIS), por meio do Comitê de Pagamentos e Infraestruturas de Mercado (CPMI), classificam falhas em infraestruturas críticas de pagamento como eventos capazes de provocar efeitos em cadeia sobre liquidez, confiança e estabilidade financeira.

Para as processadoras de cartão, essa constatação tem implicações diretas. Interrupções de curta duração são suficientes para comprometer acordos de nível de serviço, atrasar liquidações e afetar a confiança de adquirentes, emissores e lojistas. Nesse contexto, disponibilidade passa a ser tão estratégica quanto confidencialidade.

Acesso privilegiado

Relatórios globais de investigação de incidentes mostram que a maioria dos eventos relevantes não começa com técnicas altamente sofisticadas, mas com o uso indevido de acessos legítimos. O Data Breach Investigations Report 2024, da Verizon, aponta que 68% dos incidentes analisados envolvem o fator humano. Isso inclui credenciais comprometidas, permissões excessivas e falhas na governança de identidades.

Denis Furtado/Smart Solutions | Imagem: divulgação

Em ambientes de processamento de pagamento — caracterizados por integrações complexas, operação contínua e participação de múltiplos terceiros — acessos privilegiados mal gerenciados ampliam significativamente o risco de interrupções e manipulações operacionais. Isso mesmo na ausência de exploração técnica avançada.

Fraude persistente

Outro vetor crítico para as processadoras de cartão é a fraude digital de baixo valor e alta recorrência. Dados oficiais do Banco Central Europeu (BCE) indicam que a fraude em pagamentos na zona do euro atingiu € 4,2 bilhões em 2024. E mantém a trajetória de crescimento apesar do fortalecimento de mecanismos de autenticação.

Esse tipo de fraude raramente se manifesta como um grande incidente isolado. Ela opera de forma distribuída, explorando fluxos automatizados, integrações via APIs e brechas operacionais. Dessa forma, gera perdas acumuladas que afetam margens e elevam custos de monitoramento e reconciliação.

API é a sigla em inglês para interface de programação de aplicações. Na prática, é um conjunto de regras e protocolos que permite que diferentes softwares e sistemas se comuniquem e interajam entre si.

Conformidade

Normas, certificações e auditorias continuam sendo pilares fundamentais para o setor financeiro. No entanto, os dados mostram que conformidade não garante, por si só, resiliência operacional. Ataques, falhas internas e eventos externos não seguem calendários regulatórios.

A diferença entre um incidente controlado e um evento de grande impacto está cada vez mais associada à capacidade de detectar rapidamente, decidir com clareza e recuperar a operação em tempo compatível com a criticidade do negócio.

A pergunta que permanece aberta

Diante desse cenário, o debate sobre cibersegurança nas processadoras de cartão precisa evoluir do discurso técnico para a estratégia corporativa. A questão central já não é apenas se os dados estão protegidos, mas se a operação está preparada para resistir a falhas e ataques sem comprometer o ecossistema de pagamentos.

Nesse sentido, uma pergunta se impõe: se a operação fosse interrompida agora, quem decide, quem executa e em quanto tempo o serviço estaria plenamente restabelecido?

Pesquisas institucionais indicam que organizações capazes de responder a essa pergunta com clareza são as que melhor protegem receita, reputação e confiança em ambientes digitais cada vez mais críticos.

*Diretor da Smart Solutions