Imagem gerada por InnerAI
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A aprovação do acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul representa um avanço relevante na integração comercial entre os blocos. A redução de barreiras tende a ampliar fluxos, aumentar a recorrência das operações e aprofundar a complexidade das cadeias de comércio, especialmente para países como o Brasil, cuja pauta exportadora tem forte peso do agronegócio.

No entanto, esse novo cenário também evidencia um problema estrutural pouco discutido: enquanto o comércio internacional evolui, a infraestrutura financeira que sustenta essas operações permanece lenta, fragmentada e custosa.

Hoje, pagamentos internacionais ainda dependem de múltiplos intermediários, prazos imprevisíveis e estruturas pouco transparentes. Em cadeias longas, como as do agronegócio, essa ineficiência afeta diretamente o fluxo de caixa, planejamento financeiro e competitividade. O dinheiro continua circulando em um ritmo incompatível com a velocidade do comércio global.

O papel das stablecoins

É nesse ponto que as stablecoins deixam de ser apenas um instrumento financeiro alternativo e passam a cumprir um papel claro de infraestrutura. Do ponto de vista operacional, elas permitem liquidação quase imediata, reduzem intermediários e diminuem custos. Mas o ganho mais relevante está no acesso direto à liquidez dolarizada, com previsibilidade e rastreabilidade.

Para empresas exportadoras, operar com stablecoins significa reduzir a exposição cambial no curto prazo e estruturar pagamentos internacionais de forma mais eficiente. Em vez de aguardar dias por uma liquidação sujeita a variações de taxas e retenções, é possível trabalhar com prazos mais claros e controle maior sobre o capital em trânsito.

Nildson Alves/Onda Finance | Imagem: LinkedIn

Um exemplo prático ajuda a ilustrar esse cenário. Em uma exportação do Brasil para a Espanha, o modelo tradicional pode levar vários dias para concluir o pagamento, passando por diferentes bancos e sistemas. Com stablecoins, essa mesma operação pode ser liquidada em poucas horas, com rastreabilidade total da transação. Além disso, essa infraestrutura permite estruturar antecipação de recebíveis ou financiamento da operação, utilizando liquidez dolarizada de forma programática, com regras claras de liberação de recursos e garantias.

Oportunidades e desafios

A integração entre estruturas de on-ramp e off-ramp é fundamental para que esse modelo funcione de forma segura e escalável. Ela conecta o sistema financeiro tradicional à blockchain, garantindo conformidade regulatória, lastro dos ativos e transparência em todas as etapas da operação. Esse desenho reduz assimetrias entre exportadores, importadores e financiadores, além de aumentar a confiança entre as partes.

Em comparação com os meios tradicionais, a blockchain adiciona atributos essenciais para operações de comércio exterior. A imutabilidade e a rastreabilidade das transações reduzem disputas, aumentam a transparência e permitem estruturas mais sofisticadas, como execução programática de pagamentos e controle automatizado de garantias.

É claro que desafios ainda existem. A adoção desse modelo exige integração entre áreas financeira, jurídica e tecnológica das empresas, além de adaptação operacional. No entanto, a evolução regulatória no Brasil e no exterior vem criando um ambiente cada vez mais favorável para esse tipo de infraestrutura. Empresas que se preparam desde já tendem a ganhar vantagem competitiva.

Mais do que uma discussão sobre criptoativos, estamos falando da modernização da base financeira que sustenta o comércio internacional. Ao facilitar o acesso à liquidez global e tornar as operações mais rápidas, previsíveis e transparentes, soluções baseadas em stablecoins contribuem para uma integração mais eficiente do Brasil e do Mercosul às cadeias globais de valor.

O acordo UE–Mercosul abriu novas portas. Agora, o desafio é garantir que a infraestrutura financeira esteja à altura da velocidade do comércio global.

*CEO da Onda Finance