
O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) sempre foi uma referência global em política monetária. Não apenas pelo tamanho e relevância da economia norte-americana, mas sobretudo pela independência com que historicamente definiu a taxa básica de juros, guiado por critérios técnicos e por seu mandato de estabilidade de preços e pleno emprego.
Por isso, causa profunda preocupação a notícia de que o presidente do Fed, Jerome Powell, no cargo desde 2018, foi intimado pelo Departamento de Justiça. Segundo ele mesmo, a intimação estaria relacionada ao depoimento que prestou ao Congresso sobre a reforma da sede do Fed. Ainda assim, o episódio ocorre em um contexto de forte pressão para que o banco central acelere o ritmo de corte de juros.
Ao longo de 2025, o Fed promoveu três cortes consecutivos de 25 pontos-base, levando a taxa para o intervalo entre 3,5% e 3,75%. A próxima reunião do FOMC – responsável pela política monetária nos EUA – acontece nos dias 27/1 e 28/1. Ou seja, há um processo em curso, baseado na leitura de dados e na avaliação do cenário econômico, exatamente como se espera de uma autoridade monetária independente.

O problema não está em defender juros mais baixos. Esse debate é legítimo em qualquer democracia, especialmente diante de desafios fiscais, do custo da dívida pública ou do crédito imobiliário. O problema está nos meios utilizados para tentar impor uma visão. Bancos centrais ao redor do mundo seguem, em maior ou menor grau, o modelo do Fed: decisões baseadas em inflação corrente e esperada, atividade econômica, mercado de trabalho, consumo e crédito. Não em pressões políticas.
Minar esse modelo abre um precedente perigoso. Não apenas para futuros governos nos EUA, mas também para outros países que podem se sentir autorizados a adotar estratégias semelhantes. O impacto disso não é teórico. É imediato e global. Foi o que vimos nesta segunda-feira (12/01): bolsas em queda, maior desconfiança em relação aos títulos do tesouro norte-americano (Treasuries) e uma busca por proteção que impulsionou ativos como o ouro.
Tensão
No Brasil, já vivemos momentos de tensão entre o Executivo e a autoridade monetária. Mas, até aqui, essas pressões ficaram no campo da retórica. Nunca avançaram para instrumentos institucionais que colocassem em xeque a autonomia formal do BC.
E a pergunta que sempre volta é: por que a independência dos bancos centrais precisa existir não só no papel, mas também na prática? Porque decisões monetárias precisam ser técnicas, não políticas. Todos querem juros baixos. Mas forçar esse caminho pode gerar custos enormes. O principal deles é a inflação. Nós sabemos bem do que isso significa, seja pela hiperinflação dos anos 1980 e início dos 1990, seja pelo IPCA de 10,7% em 2015.
A credibilidade de um banco central é um ativo difícil de construir e muito fácil de perder. Quando ela é colocada em dúvida, os efeitos não respeitam fronteiras.
*Sócio-fundador da consultoria JL Rodrigues e presidente do conselho da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs)