Reag | Imagem: divulgação
Reag | Imagem: divulgação

A liquidação extrajudicial da Reag pelo Banco Central (BC) nesta quinta-feira (15/1), cerca de dois meses depois da intervenção sofrida pelo Banco Master e quatro meses após a deflagração da Operação Carbono Oculto, trouxe à tona a expansão silenciosa do grupo. Para além dos fundos de investimento, administrados pela CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM), antiga Reag Investimentos, a empresa fundada por João Carlos Falbo Mansur montou “tentáculos” no mercado de fintechs, crédito e meios de pagamento, com operações que cruzaram o radar de reguladores e investidores.

Em 2023, por exemplo, a Reag comprou uma participação minoritária na Focus Financeira, que passou a operar com a marca Qista. De acordo com as demonstrações financeiras da instituição, referentes ao primeiro semestre de 2025, a Reag detém 46,8% do negócio. Antes disso, a própria Focus havia adquirido a plataforma Bom Pra Crédito, em 2022, ampliando sua atuação no crédito digital. Um ano depois, o marketplace de crédito foi vendido para a Reag por valor não revelado.

Já em 2024, a Reag ficou com a Will Instituição de Pagamento (IP), ativo que não entrou no pacote comprado pelo Banco Master quando arrematou o Will Bank. A operação resultou na rebatização da empresa como Reag Pagamentos, o que, à época, na visão do mercado, reforçou a presença do grupo no setor de pagamentos. “A aquisição da Will IP pelo Grupo Reag é uma ação estratégica, feita com o objetivo de aumentar a oferta de produtos e serviços financeiros através de ações de cross-selling realizadas entre as empresas do Conglomerado Reag”, apontou demonstração financeira da Reag IP, disponível no site do BC.

Conexões

Nesse movimento, surge uma das conexões entre a Reag e o Master. Os dois grupos circularam por ativos semelhantes, dividiram interesses em fintechs, crédito e infraestrutura e avançaram por caminhos paralelos em operações relevantes. Exemplo disso é a compra da Will IP pela Reag, enquanto o Master ficou com o banco digital.

O Will Bank, que está à venda desde 2025, entrou em crise após crescer de forma acelerada, atrair investidores relevantes e enfrentar falhas de capital e controle que levaram o BC a cobrar uma solução dos controladores. Conforme reportagem do Valor Econômico, a situação se agravou com a cisão do banco em relação à financeira Avista, quando uma dívida foi quitada por meio de um FIDC lastreado em um pré-precatório bilionário, ativo de difícil mensuração e sujeito a mudanças regulatórias. Com novas regras do BC para registro de precatórios, o banco passou a precisar de capital adicional e buscou um novo sócio.

A saída veio em 2024, com a venda do Will ao Master em uma operação estruturada junto com a Reag. O Master ficou com a licença de financeira (Will Financeira) e a carteira de crédito. Por sua vez, a Reag assumiu a Instituição de Pagamento, depois rebatizada de Reag Pagamentos. A transação envolveu pagamentos superiores a R$ 1 bilhão, sucessivas ressalvas de auditoria sobre o FIDC, assim como deixou o banco digital com patrimônio pressionado e prejuízos recorrentes.

A atuação de ambos no mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) também ajuda a montar esse quadro. Tanto a Reag quanto o Master aparecem em apurações que investigam suspeitas de fraudes e irregularidades financeiras.

Nesse mercado, a Reag chegou a comprar a Empírica, gestora especializada nesse tipo de veículo. No entanto, em meio a uma sequência de desinvestimentos após a deflagração da Operação Carbono Oculto, em setembro de 2025, a Reag vendeu o negócio para a Smart Hub Participações, holding da SRM, gestora também com forte atuação em FIDCs para fintechs.

Da glória ao fundo do poço

Fundada em 2012, a Reag cresceu rápido. Chamou atenção ao se apresentar como a maior gestora independente do País, ou seja, sem ligação com bancos ou grandes instituições financeiras. No auge, divulgava R$ 299 bilhões sob gestão. O portfólio incluía fundos multimercado, crédito estruturado, private equity e gestão de fortunas.

Com o tempo, a empresa apostou em aquisições para ampliar presença e escopo. Incorporou casas como Quasar, Empírica, Hieron e Berkana. Em um passo mais ousado, comprou a Getninjas. Depois, entrou na bolsa por meio de uma oferta pública inicial (IPO) feita de forma reversa, ao assumir o controle de uma companhia já listada.

Mas a trajetória, até então bem-sucedida, mudou de rumo em agosto de 2025. A Reag entrou no radar da megaoperação Carbono Oculto. A ação mobilizou cerca de 1,4 mil agentes em buscas e apreensões, inclusive na sede da empresa, no Jardim América, em São Paulo.

As investigações miravam um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Havia suspeitas de uso de fundos de investimento e fintechs para dar aparência legal a recursos do crime organizado. As apurações citavam ligações com postos associados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Naquele momento, a companhia informava administrar 625 fundos. O patrimônio líquido somava R$ 238 bilhões, com R$ 204 bilhões distribuídos em 579 fundos ativos. Logo após a operação, as ações caíram 15,7% em um único dia. Em seguida, os negócios passaram a enfrentar restrições crescentes.

Com a reputação pressionada, a empresa iniciou a venda de ativos. Em setembro, fechou acordo para vender a Empírica à Smart Hub Participações por R$ 25 milhões, com pagamento parcelado.

Na mesma época, a B100, holding da Planner Corretora, anunciou a intenção de comprar a Companhia Brasileira de Serviços Fiduciários, a Ciabrasf. A empresa era a maior provedora independente do País nesse segmento e integrava o grupo. A Reag ainda vendeu sua participação na SteelCorp. A empresa atua na construção industrializada em Light Steel Frame. Os valores não foram divulgados.

Nova operação e liquidação

A situação voltou a se agravar na quarta-feira (14/1), com a segunda fase da operação Compliance Zero, da PF. A apuração tratou de irregularidades ligadas ao Master e teve entre os alvos o fundador da Reag, João Carlos Falbo Mansur. O executivo deixou a gestão e conselho da empresa em outubro do ano passado. Além disso, vendeu sua participação para sócios da Arandu Partners, formada por diretores da própria Reag.

Já na manhã desta quinta-feira (15/1), o Banco Central determinou a liquidação da CBSF DTVM, ex-Reag Trust DTVM, em ato assinado pelo presidente da autarquia Gabriel Galípolo. Em nota à imprensa, o BC atribuiu a decisão a “graves violações às normas” que regem as atividades das instituições integrantes do sistema financeiro. De acordo com o regulador, a CBSF representa menos de 0,001% do ativo total ajustado do Sistema Financeiro Nacional (SFN) e está enquadrada no segmento S4 da regulação prudencial.

“O Banco Central continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades nos termos de suas competências legais. O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis. Nos termos da lei, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição”, afirmou o BC.

O regulador nomeou como liquidante a APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo. O responsável técnico é Antonio Pereira de Souza. Ele foi servidor do BC por 24 anos, deixando a instituição em 2008.

*Colaborou Danylo Martins