Apesar das quase 200 bilhões de chamadas de APIs desde o início do Open Finance, as instituições participantes do sistema ainda não aproveitam muitos desses dados em sua plenitude. A leitura é de Ivo Mósca, diretor de Inovação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). “A gente tem muita ineficiência e muita oportunidade para aprender a trabalhar isso de maneira mais assertiva”, disse ele, em painel no evento “Open Finance 5 anos: conectando o futuro“, realizado na quinta-feira (28/8) pelo Banco Central (BC).
API é a sigla em inglês para Interface de Programação de Aplicação. Em suma, é um conjunto de regras e definições que permite que diferentes softwares e sistemas se comuniquem e troquem dados ou funcionalidades entre si.
O executivo ressaltou que o desafio não é apenas acumular informações, mas transformá-las em valor para o usuário cada vez mais rápido. “Muitas vezes envolve a capacidade de trazer inteligência e apresentar para o cliente com velocidade. Temos os dados, as chamadas, os casos de uso lançados, mas ainda falta conseguir entregar oferta naquele ‘micro momento’ em que o cliente precisa, na hora adequada.”
Na visão de Ivo, o futuro do Open Finance passa por integrar Inteligência Artificial (IA), dar mais velocidade aos processos de decisão e evoluir a experiência do cliente. “É isso que vai demandar menos tempo e tirar fricção do processo”, afirmou. Mas é preciso equilibrar essa velocidade com a transparência na oferta aos clientes, salientou o executivo. “É um ponto de atenção que precisamos ter, com essas jornadas cada vez mais simplificadas. Para que o cliente tenha controle sobre esse enorme pool de informações agora sendo compartilhadas multilateralmente.”
Para Patrícia Leal, diretora de Inovação em Pagamentos do Mercado Pago, o avanço do Open Finance deve acelerar a criação de plataformas integradas, que funcionem como super apps ou marketplaces de serviços financeiros. “Claramente, a gente caminha para ter um lugar livre onde a gente possa escolher produtos, de qualquer instituição que tenha preferência”, disse a executiva, também presente no debate.
Segundo ela, essa centralização deve ir além dos serviços financeiros tradicionais. “Eu acredito que vamos ter não só serviços financeiros. Por que não colocar outras coisas nessa plataforma, oferecer serviços de energia, por exemplo?”, questionou. Para Patrícia, com a evolução de tecnologias como a IA, ganham força os agentes conversacionais para relacionamento com os clientes. “A gente acredita muito em serviços consultivos, no personal banker. Como a gente cria esses agentes personalizados, que conheçam a vida financeira do cliente e possam interagir de maneira conversacional.”
A executiva disse ainda que, para que esse futuro do Open Finance se concretize, será necessário garantir simplicidade e fluidez na experiência do usuário nas plataformas. “Essa jornada precisa ser sem redirecionamento, para que o cliente não perceba essas mudanças, porque isso gera um pouco de insegurança. Isso certamente vai evoluir e está na agenda”, afirmou.
Empresas: um desafio à parte
Jonatas Giovinazzo, executivo responsável por Finanças (Chief Financial Officer, CFO) da Finnet e presidente da Init – que representa iniciadores de pagamento -, lembrou dos desafios das empresas em aderir ao Open Finance. E destacou a oportunidade que existe para esse perfil de cliente bancário, dados os múltiplos relacionamentos bancários das pessoas jurídicas.
“Uma empresa média tem, no mínimo, três instituições financeiras de relacionamento. Ela realiza os seus pagamentos em uma instituição. Tem os seus recebíveis, emite sua cobrança em uma segunda. E eventualmente, tem um relacionamento de crédito com uma terceira. Só isso já traz uma importância muito grande e uma oportunidade de participação no Open Finance”, exemplificou Jonatas.
De acordo com o executivo, os principais desafios hoje para a PJ são qualidade dos dados e simplificação do fluxo de consentimento. Isso porque as empresas têm múltiplos procuradores ou níveis de alçada, por exemplo. “E depois que uma empresa adere ao Open Finance, tem uma parte fundamental que é a centralização da informação. Num contexto de juros altos, reforma tributária chegando, a gestão do fluxo de caixa é muito importante para o empresário e para as empresas”, afirmou ele.