
Em mais um capítulo do caso Master, o Banco Central (BC) decretou nesta quarta-feira (21/1) a liquidação extrajudicial da Will Financeira (Will Bank), controlada pelo Banco Master Múltiplo. A decisão do regulador vem um dia depois de a Mastercard suspender o uso dos cartões do banco digital.
Quando o BC decretou a liquidação do Master, em novembro de 2025, deixou o Will Bank de fora dessa intervenção. O regulador colocou a instituição sob o Regime Especial de Administração Temporária (RAET), o que permitiu ao banco digital seguir com as atividades. No entanto, de acordo com o regulador, a solução “não se mostrou viável”. Em nota, o BC citou o descumprimento pela Will Financeira da grade de pagamentos com o arranjo de pagamentos Mastercard e o consequente bloqueio de sua participação nesse arranjo.
“Assim, tornou-se inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira, em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A., já sob liquidação extrajudicial”, afirmou o BC, na nota.
Ainda no texto, a autarquia informou que o Conglomerado Master (cuja instituição líder é o Banco Master S/A) era classificado como de crédito diversificado e porte pequeno. Enquadrado no segmento S3 da regulação prudencial, detinha 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional (SFN).
“O Banco Central continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades nos termos de suas competências legais”, disse o BC. Conforme a instituição, o resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis. “Nos termos da lei, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição objeto da liquidação decretada.”
O BC nomeou como liquidante a EFB Regimes Especiais de Empresas, sendo responsável técnico Eduardo Felix Bianchini, o mesmo responsável pelo processo do Banco Master.
Sinais da crise
Nos últimos meses, reportagens publicadas por sites com o Pipeline (do Valor Econômico) apontavam uma possível venda do Will Bank. No páreo, o principal interessado era o fundo árabe Mubadala Capital. Mas o banco digital chegou a despertar a atenção do empresário e apresentador de TV, Luciano Huck. Porém, o negócio não foi adiante.
Evolução da Pag!, o Will Bank começou oferecendo cartão de crédito e, com o tempo, ampliou o portfólio de soluções. O banco digital atende cerca de 10 milhões de clientes, com forte penetração na região Nordeste.
Em julho de 2021, levantou um aporte de R$ 250 milhões liderado pelo fundo Private Equity da XP e pela gestora Atmos Capital. Desde então, o banco digital não recebeu novas injeções de capital até a aquisição pelo Master, anunciada em 2024.
O negócio marcou um “encontro” entre Master e Reag, hoje investigadas por supostas fraudes, como mostrou reportagem do Finsiders Brasil. Na ocasião, o banco de Vorcaro ficou com a licença de financeira (Will Financeira, a instituição liquidada agora) e a carteira de crédito. Por sua vez, a Reag assumiu a Instituição de Pagamento (IP), depois rebatizada de Reag Pagamentos. Essa última não entrou na liquidação do BC.
Antes da compra pelo Master, o Will Bank já vinha enfrentando dificuldades. Numa entrevista ao Finsiders Brasil, em fevereiro de 2023, o então CEO Felipe Félix reconheceu o cenário complexo para novas captações ou mesmo para um IPO, algo que também chegou a ser ventilado pelo mercado. Dois meses depois, o banco digital fez demissões em massa no que classificou à época como uma “reestruturação estratégica”. Porém, sem revelar os motivos desse movimento, tampouco os passos seguintes.
Até setembro de 2025, segundo o sistema IFData (do BC), o Will Bank tinha pouco mais de R$ 6,5 bilhões em depósitos a prazo, de um passivo total de R$ 14,2 bilhões.