
A Abecs, entidade que representa o setor de meios eletrônicos de pagamento, acredita que o momento atual é oportuno à inclusão dos cartões no “trilho” do Open Finance. A proposta está em discussão com o Banco Central (BC) e demais entidades do conselho do Open Finance. No final do ano passado, o regulador sinalizou que trazer cartões para o Open Finance é uma ideia que “está na mesa”.
A ideia foi apresentada durante o 18º Congresso de Meios Eletrônicos de Pagamento (CMEP), em painel com representantes de Itaú Unibanco, Visa, Getnet e Banco Original. A proposta da Abecs visa aproveitar a maturidade do ecossistema e o avanço da Jornada Sem Redirecionamento (JSR).
“O momento nos parece bastante favorável”, afirmou Gustavo Cappi, responsável pelo Open Finance no Itaú. “O ecossistema está mais maduro, com dados mais confiáveis e funcionalidades novas que tornam essa integração mais viável, como a JSR.”
Iniciação de pagamento
Os números reforçam a escala do sistema no Brasil. “Os consentimentos totais saltaram de 18 milhões em 2022 para 68 milhões em 2024, representando cerca de 40 milhões de clientes”, disse Raul Moreira. O executivo é presidente do Conselho de Administração do Banco Original e moderou o painel.
Além da JSR, outros recursos como a portabilidade de salário e o compartilhamento de dados de investimentos ganharam tração. “A gente começa a ver o Open Finance menos como uma grande base de dados e mais como uma alavanca de funcionalidades que estão sendo destravadas e acontecendo”, disse Gustavo, do Itaú.
A proposta preserva o modelo de quatro partes tradicional da indústria de cartões — com emissores, credenciadores, bandeiras e lojistas. Ao mesmo tempo, quer reduzir atritos na experiência de compra online.
O iniciador de pagamento, habilitado no Open Finance, coletará os dados do cartão diretamente com o banco emissor e os repassará ao credenciador, permitindo a realização da transação sem que o consumidor precise digitar informações como o número do cartão ou o CVV. A solução mira situações em que há maior fricção, como compras únicas por link ou lojas que não armazenam dados de pagamento.
“A gente está propondo algo que seja agnóstico, que respeite o fluxo de quatro partes, mas que consiga sanar dores por meio de integrações simples”, disse Ricardo Marson, superintendente executivo de Produtos na Getnet. Ele destacou que nem todos os lojistas têm infraestrutura para tokenizar ou armazenar cartões, por exemplo.
Ganhos expressivos do Open
De acordo com Leonardo Enrique, diretor executivo de Open Finance e Cross-Border da Visa, a JSR já apresenta ganhos expressivos de conversão. “Hoje, por exemplo, a taxa de conversão na iniciação de pagamentos com redirecionamento está em torno de 37%, 38%. No piloto da JSR, já vimos taxas acima de 90%”, afirmou. Para ele, o modelo pode aproveitar a robustez do mundo dos cartões — com segurança, regras de disputa estabelecidas e penetração alta — sem perder os ganhos de usabilidade que o Open Finance proporciona.
Ricardo, da Getnet, observou que o cenário atual é resultado de uma fundação construída ao longo de quatro anos. “Hoje já existem casos de uso maduros, tanto do ponto de vista do compartilhamento de dados quanto da Jornada Sem Redirecionamento. Isso traz um ganho grande de experiência”, disse.
A proposta da Abecs, segundo os participantes, busca justamente garantir que os cartões — ainda amplamente utilizados pelos consumidores — possam operar de forma mais integrada e eficiente nesse novo arranjo. “No final do dia, a gente quer melhorar a experiência, garantir segurança e dar mais opções para o consumidor e para o lojista”, disse Ricardo. “O Open Finance vai ser uma das principais infraestruturas do sistema financeiro. E a indústria de cartões precisa estar nela”, afirmou Raul.