
A decisão do Banco Central (BC), anunciada na quarta-feira (21/1), colocou o Will Bank em liquidação extrajudicial e encerrou a trajetória de uma das instituições financeiras digitais que mais cresceram fora do eixo Sudeste. Desde 2024, a instituição pertencia ao conglomerado do Banco Master e nasceu em 2017 em Vitória (ES) com foco em ampliar o acesso a serviços financeiros, principalmente por meio de cartão de crédito sem anuidade para clientes fora do sistema bancário tradicional.
A estratégia parecia boa. Afinal, combinou operação 100% digital e campanhas agressivas de marketing na TV e nas redes sociais, inclusive com influenciadores e famosos. O esforço da equipe de produtos e de comunicação pareceu bem-sucedido, especialmente no Nordeste, região onde o Will construiu sua principal base de clientes, segundo balanços financeiros divulgados pela empresa entre 2023 e 2024.
Com a liquidação, vieram à tona os compromissos financeiros da fintech. De acordo com dados do BC, em setembro de 2025, a instituição tinha R$ 6,508 bilhões em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) a pagar. O banco digital chegou a atrair investidores ao oferecer CDB com rendimento de até 230% do CDI.
A instituição mantinha ainda cerca de R$ 1,3 bilhão em Letras Financeiras (LFs). Esses investimentos contam com proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), limitada a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
Na quarta (21/1), após a liquidação, o Will Bank retirou todas as opções de serviços oferecidos no aplicativo e substituiu por um aviso: “Devido à liquidação determinada pelo Banco Central, as operações estão suspensas. Caso você possua saldo, em breve traremos mais informações sobre como terá acesso aos seus recursos”.
Nas redes sociais e no site Reclame Aqui não faltaram queixas de clientes, que relataram dificuldade para obter informações, incerteza sobre prazos e dúvidas sobre a devolução dos valores mantidos nas contas.
Ninguém comprou
O controle do Will Bank mudou no início de 2024, quando o Master concluiu a compra da fintech. Poucos meses depois, em março de 2025, o Banco de Brasília (BRB) anunciou a intenção de adquirir o Master. O discurso público apontava o uso da estrutura digital como caminho para ampliar a atuação junto às classes C e D.
A operação não avançou. Em setembro do ano passado, o BC negou a autorização para a compra. Já em novembro, o regulador deu início à liquidação do Master. Com isso, o banco sai do Sistema Financeiro Nacional (SFN) e tem suas atividades interrompidas.
Durante esse processo, o BC optou por manter o Will Bank em funcionamento. A avaliação considerou o interesse de investidores na fintech e a possibilidade de reduzir parte das dívidas do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, por meio de uma venda.
Entre os nomes que analisaram o negócio no ano passado estiveram o apresentador da TV Globo, Luciano Huck, e o Mubadala Capital, braço de investimentos alternativos do fundo soberano de Abu Dhabi, segundo informações apuradas na ocasião por veículos como Pipeline e Folha de S.Paulo.
Desde então, o Will Bank operava sob Regime Especial de Administração Temporária (RAET) do BC. Esse mecanismo permite a continuidade das operações enquanto o interventor busca soluções que reduzam perdas para o FGC e para outros credores. O modelo também autoriza a venda da instituição, desde que receba aval do responsável pela intervenção.
As negociações com potenciais compradores seguiram mesmo após a liquidação do Master, embora sem avanços concretos.
Mastercard abriu caminho para o BC
Ao mesmo tempo, o banco digital passou a enfrentar restrições operacionais. Nesta semana, a Mastercard suspendeu a aceitação de cartões emitidos pelo Will Bank depois do não pagamento de valores devidos.
Na segunda-feira (19/1), transações realizadas por clientes deixaram de ser liquidadas junto a diversos participantes do mercado de cartões. A suspensão buscou impedir o aumento do volume de débitos da instituição.
Os números financeiros ajudam a contextualizar a situação. O Will Bank fechou setembro do ano passado com R$ 14,2 bilhões em ativos e patrimônio líquido negativo de R$ 76,2 milhões, segundo o BC. No terceiro trimestre de 2025, a instituição registrou lucro líquido de R$ 408,3 milhões.
Contexto
Evolução da Pag!, da antiga Avista Financeira, o Will Bank nasceu em 2017 oferecendo cartão de crédito e, com o tempo, ampliou o portfólio de soluções. Em julho de 2021, levantou um aporte de R$ 250 milhões liderado pelo fundo Private Equity da XP e pela gestora Atmos Capital. Desde então, o banco digital não recebeu novas injeções de capital até a aquisição pelo Master, em 2024.
Antes da compra pelo Master, o Will Bank já vinha enfrentando dificuldades. Numa entrevista ao Finsiders Brasil, em fevereiro de 2023, o então CEO Felipe Félix reconheceu o cenário complexo para novas captações ou mesmo para um IPO, algo que também chegou a ser ventilado pelo mercado. Dois meses depois, o banco digital fez demissões em massa no que classificou à época como uma “reestruturação estratégica”. Porém, sem revelar os motivos desse movimento, tampouco os passos seguintes.