Artigo: Um panorama da evolução do mercado das fintechs

O Open Finance representa um ainda nascente, mas importante passo para a promoção do acesso mais justo ao crédito, escreve Elber Laranja

Por Caroline Capitani*, para o Finsiders

As fintechs provocaram uma evolução rápida do segmento financeiro, especialmente a partir de 2013, trazendo uma nova experiência ao consumidor por meio de modelos inovadores, de baixo custo e, principalmente, digitais. Tanto é que neste ano, dos 22 unicórnios brasileiros, dez são fintechs. Atualmente, já são mais de 1,2 mil atuando no Brasil, segundo dados do estudo Inside Fintech, da plataforma de inovação Distrito.

No mundo, não é diferente. O segmento recebeu investimentos na ordem de US$ 142,2 bilhões em 2022, ante os US$ 49 bilhões, em 2020, o que demonstra que os investimentos mais do que dobraram, segundo relatório da CB Insights.

Diante desses números, surgem alguns questionamentos: o que está vindo de novo que vai nos ajudar a se relacionar com o dinheiro? Quais categorias estão surgindo? Quem tem se destacado?

Para responder a essas perguntas, fiz uma análise do CB Insights Fintech 250, lista de empresas privadas emergentes que trabalham em tecnologia financeira inovadora, comparando os rankings de 2017 e 2022, percebendo as diferenças das fintechs que eram destaque pré-pandemia e também observando o que surgiu depois desse momento que marcou o mundo como um todo.

Neste levantamento, os Estados Unidos seguem com o maior número de fintechs: são 132, o que representa 52,8% do total mundial. De maneira menos expressiva temos o Reino Unido (31 ou 12,4% do total), seguido da Índia (14 ou 5,6% do total).

Caroline Capitani, VP de design digital e inovação da ilegra (Foto: Rogério Fernandes/Divulgação ilegra)
Caroline Capitani, VP de design digital e inovação da ilegra (Foto: Rogério Fernandes/Divulgação ilegra)

Um fator que se evidencia nessa comparação foi o declínio expressivo deste mercado na China, uma vez que, em 2017, eram 30 fintechs e, seis anos após, apenas três entre as destaques. Especificamente sobre este caso, alguns pontos podem ser considerados, como falta de oportunidades para novas empresas ou supremacia de players que impedem que outros se destaquem. São questões que precisam ser mais bem discutidas, mas, de fato, trata-se de uma redução questionável pelo tamanho da população chinesa.

No caso do Brasil, estamos representados por nove fintechs no ranking, ou seja, 3,6% do total mundial: Agi, C6 Bank, CloudWalk, Creditas, Ebanx, Loft, QuintoAndar, Unico e Warren. Destas, apenas Creditas estava na lista de 2017, que contava também com Easynvest (adquirida pelo Nubank), Guiabolso (comprado pelo PicPay) e Nubank.

Sobre as categorias do ranking, as dez que contam com maior número de fintechs no estudo mais recente são: processamento de pagamentos e redes; criptomoedas; seguros; core banking e infraestrutura; investimento no varejo e gestão de patrimônio; folha de pagamento de benefícios; cartões corporativos e gestão de despesas; bancos digitais; imobiliário e hipoteca; prevenção de fraude e compliance. Foram 188 empresas listadas nessas categorias

Nesse ponto, notamos algumas mudanças. Em processamento de pagamentos, por exemplo, havia muitas startups de crowdfunding, algo que não se repetiu em 2022. Em contrapartida, surgiram novas, como criptomoedas, sendo representada no mundo por 24 startups, o que mostra essa volatilidade. Blockchain não aparece mais e deixou de ser uma categoria destaque há alguns anos, muito possivelmente por ter sido incorporada como uma tecnologia viabilizadora para as fintechs de criptomoedas.

Leia também: Fintechs investem cada vez mais em cibersegurança

Em seguros, muitas trabalham com soluções que atendam a demandas novas e crescentes de cibersegurança. Além disso, em 2022 tivemos a consolidação de empresas de folha de pagamento e benefícios que visam resolver problemas relacionados a funcionários que estão trabalhando de forma remota, inclusive fora do país de origem, levando mais praticidade e conveniência, bem como atendendo a questões legais. Já há empresas bem consolidadas nessa área e o mercado mostra que ainda existe espaço para diferentes modelos de negócio, com novas soluções surgindo.

Já quando se fala em investidores, os principais aceleradores dessas iniciativas são Tiger Global Management, com 47 fintechs investidas; Ribbit Capital, com 29; e Insight Partners, com 26. Há outros como Y Combinator, Paycheck Protection Program, Coatue Management, DST Global, Andreessen Horowitz, Sequoia Capital, General Atlantic, Goldman Sachs, Google Ventures e BlackRock. Esses são os principais fundos globais que mais têm investido em fintechs no mundo.

Olhando para o futuro, é bastante interessante para empresas grandes e consolidadas acompanharem o movimento crescente de Open Data, muito puxado pelo Open Finance. Estar atento às empresas nascentes, identificar o grau de personalização que elas desenvolvem, com a intenção de mapear oportunidades de parcerias dentro de um olhar sistêmico e também de agregação de valor para o usuário.

Por fim, acredito que, no próximo estudo, as fintechs passem a trabalhar o tema ESG. A americana BlackRock, maior empresa em gestão de ativos no mundo, tem posicionado publicamente a intenção de não investir em empresas que não atendam a critérios de ESG, por exemplo.

Com as exigências dos órgãos reguladores – como CVM, Bacen e Susep no Brasil, e outras ainda mais rigorosas no exterior – temos visto mais soluções que buscam ajudar as empresas a se adequarem às regras. Há uma dor do mercado. Então, é possível que empreendedores a identifiquem e transformem em soluções inovadoras.

*Caroline Capitani é vice-presidente de design digital e inovação da ilegra, empresa global de inovação, design e software.

As opiniões neste espaço refletem a visão dos especialistas e executivos de mercado. O Finsiders não se responsabiliza pelas informações apresentadas pelo autor do texto.

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