'Embedded finance' deve repaginar o acesso ao sistema financeiro

Com a digitalização, o acesso ao sistema financeiro tem se tornado cada vez mais rápido, integrado e personalizado, escreve Morgana Tolentino

Por Morgana Tolentino*, exclusivo para o Finsiders

Aquela cena, tão clássica para alguns, de ir à agência bancária para efetuar qualquer tipo de transação frente a frente com um funcionário do banco está cada vez menos usual. O processo de digitalização revolucionou o sistema financeiro, o que se vê cotidianamente por meio do aumento no uso de mobile banking, crescimento do uso de pagamentos digitais, oferta de novos serviços e produtos por fintechs, entre outros, em um movimento que já vinha se intensificando desde a virada do século e que se acelerou ainda mais com a pandemia.

Se, para alguns, esses exemplos já são muito impactantes, os próximos passos prometem mudar por completo a forma como os usuários acessam o sistema financeiro! A revolução segue agora com o ‘embedded finance’ (finanças incorporadas), um modelo de negócio que visa integrar serviços financeiros a plataformas não financeiras, permitindo que os usuários façam transações sem precisar ter contato direto com uma instituição financeira.

Tecnologia e digitalização

Com a digitalização, o acesso ao sistema financeiro tem se tornado cada vez mais rápido, mais integrado e mais personalizado do ponto de vista do cliente. Autoridades regulatórias veem com bons olhos essa digitalização que, além de trazer mais eficiência para as operações, também tem sido um importante vetor de inclusão financeira e estímulo à competição no setor (com a entrada de novos players mais tecnológicos). Não à toa, o ano de 2022 foi marcado pela evolução nas discussões sobre CBDCs e pelo amadurecimento dos projetos de Open Finance, estimulando ainda mais a interoperabilidade no sistema.

Morgana Tolentino, pesquisadora do Instituto Propague. Foto: Divulgação
Morgana Tolentino, pesquisadora do Instituto Propague. Foto: Divulgação

Essa melhora na interoperabilidade tem permitido toda uma diversificação nos modelos de negócio no setor e, nesse sentido, o ‘embedded finance’ tem se mostrado uma forte tendência, pois viabiliza que o produto financeiro seja ofertado ao cliente final por uma empresa não financeira, gerando menos fricções na jornada do cliente.

A ideia em si não é nova e já acontecia antes da digitalização. Um dos exemplos mais conhecidos é a oferta de financiamento de automóveis feito diretamente na hora da compra do produto, oferecido pela própria marca do carro.

Embora o modelo já existisse, ele era muito custoso e burocrático. Com as mudanças tecnológicas e a melhora na interoperabilidade, o ‘embedded finance’ expande a ideia inicial, tornando-a mais acessível para as empresas. Esse tipo de negócio vem ganhando espaço no mercado, com a promessa de melhorar a experiência do usuário enquanto crescem os números dos pagamentos digitais, atendendo, assim, as novas preferências do consumidor.

O novo padrão de consumo, além de priorizar transações digitais, também induz a melhora da experiência do usuário, que quer ter uma jornada rápida e simples (conseguir efetuar uma compra, por exemplo, em pouco tempo e com poucos cliques). Assim, um modelo de ‘embedded finance’ agrega valor quando permite que uma plataforma ofereça uma gama de serviços financeiros (que podem ir desde pagamentos, a investimentos e até concessão de crédito) diretamente nele, sem precisar redirecionar o cliente para o aplicativo de um banco ou outra instituição financeira para que uma transação seja autorizada.

O ‘embedded finance’ promete mudar inteiramente a forma como os usuários podem acessar o sistema financeiro, pois permite que o processo ocorra inteiramente dentro da plataforma que oferta o produto final (não-financeiro). Se, como previu Angela Strange [sócia da a16z], toda empresa vier a ser uma fintech, então qualquer plataforma (mesmo de produtos e serviços não financeiros) será um canal de acesso direto do usuário final com o sistema financeiro.

*Morgana Tolentino é doutoranda em economia pela UFRJ e pesquisadora do Instituto Propague, instituição sem fins lucrativos que tem a missão de expandir o debate sobre o sistema financeiro no Brasil.

As opiniões neste espaço refletem a visão de founders, especialistas e executivo(a)s de mercado. O Finsiders não se responsabiliza pelas informações apresentadas pelo(a) autor(a) do texto.

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