Na CashU, a solução de crédito B2B que atraiu a ABSeed Ventures

Há cerca de quatro anos, o advogado Thiago Saldanha estava à frente da parte financeira de um negócio criado pelo irmão, quando um incêndio destruiu o único centro de distribuição da empresa, levando junto algo como R$ 4 milhões em mercadorias. Na época, mesmo com seguro e recebíveis performados, ele não conseguiu acessar crédito na instituição financeira com a qual tinha relacionamento.

A empresa conseguiu se recuperar, mas ali ficou claro para Thiago que crédito era (e continua sendo) um grande problema para pequenos negócios. “Comecei a perceber que tinha uma cortina de fumaça entre o fluxo de caixa da empresa e os financiadores, seja fornecedor, seja banco, ou FIDCs”, conta, ao Finsiders.

Foi o estalo, ou o momento do “eureka” como ele diz, para Thiago enxergar uma oportunidade de empreender. Mas antes ele foi para o outro lado da mesa, estruturando um FIDC. “Só confirmou minhas visões de que é difícil entender o fluxo de caixa das PMEs”, afirma.

Depois, ao fazer MBA na Universidade de Columbia, o empreendedor notou que muitas das fintechs de crédito para PMEs nos EUA estavam pautadas em dados alternativos e machine learning, e por trás delas sempre havia um PhD. “Fui atrás de um PhD para embarcar na CashU”, relembra.

Em Columbia, Thiago conheceu Yuri Fonseca, candidato a PhD na divisão de “decision, risk e operations”, um departamento da universidade que já produziu diretores de data science de algumas das big techs norte-americanas, como Facebook, Amazon e Uber. Para completar o trio de fundadores, chegou João Torquato, desenvolvedor de software com passagens por empresas como Locaweb, Bio Ritmo e Betalabs.

Em outubro de 2019, os empreendedores colocaram de pé a CashU, uma fintech especializada em modelagem e inteligência de crédito para empresas com modelo B2B. A largada do negócio foi com recursos próprios e de investidores-anjos, de nomes não revelados.

De lá pra cá, a startup vem testando alguns produtos e verticais e hoje sua solução entrega, inicialmente, gestão de limite de crédito a prazo para grandes empresas de setores como food services, distribuição de produtos pet e vestuário, em que a recorrência é grande e os tíquetes médios são pequenos, explica Thiago. O modelo de negócio é SaaS (software as a service).

Entre os clientes estão a empresa de tecnologia Sky.One Solutions, a distribuidora de gás Copagaz, a gigante varejista de moda Grupo Soma e o marketplace Zax, que conecta varejistas e atacadistas. Há outros contratos assinados e mais em negociação, mas o empreendedor não fala sobre pipeline.

Novo cheque

Agora, a CashU quer aprimorar mais a tecnologia e aumentar a base de clientes. Para isso, acaba de levantar seu primeiro investimento institucional — um seed money de R$ 6,1 milhões liderado pela ABSeed Ventures (que investe em fintechs como Swap e Conta Simples), com participação dos fundos Caravela, ScaleXOpen e Bertha Capital, além de investidores-anjos de nomes não divulgados.

Além de aprimorar as soluções, o cheque será destinado para expansão, marketing, vendas, assim como para escalar a plataforma. “Estamos testando alguns produtos que vão ser grandes produtos financeiros”, diz Thiago, que evita dar detalhes sobre o roadmap de soluções. A equipe já caminha para 20 pessoas, com planos de chegar a 30 até o fim do primeiro trimestre.

Da esq. para a dir., os sócios da CashU: Yuri Fonseca, João Torquato, Natália Alexandria, Lucio Rosa, Thiago Saldanha e Lucas Dornellas (Divulgação)
Da esq. para a dir., os sócios da CashU: Yuri Fonseca, João Torquato, Natália Alexandria, Lucio Rosa, Thiago Saldanha e Lucas Dornellas (Divulgação)

Para compor o quadro de C-levels e sócios, a empresa trouxe nomes como Natália Alexandria, que já esteve à frente da área comercial da fintech Blu365 e da multinacional Intrum no Brasil; Lucas Dornellas, que atuou no marketing de empresas como Dotz e Carflix; e Lucio Rosa, PhD, que tem no currículo passagem pela Michelin, na França, e veio para comandar a área de machine learning Ops.

A solução

A tecnologia construída pela fintech combina dados alternativos com machine learning. Calma, vou explicar. A solução da CashU se conecta a alguns dos principais ERPs do mercado e consome todo o histórico de transações e relacionamentos que a grande empresa (o cliente da CashU) tem com pequenas e médias empresas (PME) em seu ecossistema.

“Conseguimos extrair esses dados, agregando variáveis macroeconômicas, e precificando aquele risco para aquele cliente”, explica Thiago. O segundo pilar que completa a solução é o machine learning, com uma tecnologia que o empreendedor diz ser utilizada por algumas das maiores fintechs brasileiras. “É algo feito nos EUA há duas décadas, mas recente no Brasil.”

O modelo construído pela fintech vem sendo testado em três segmentos: food service, vestuário e distribuição de produtos pet. Os resultados, diz Thiago, foram bem assertivos. “Como estou plugado no sistema de gestão de grandes empresas, não entregamos só uma medida de risco (score), mas uma medida de crédito, indicando aumento ou redução do limite de crédito, por exemplo, e o risco específico de cada PME.”

Aliás, lembra que Thiago comentou sobre novos produtos? Ele não abre detalhes, mas basta pensar um pouco para chegar às diversas soluções que podem ser criadas a partir da inteligência de crédito. As possibilidades incluem desde a concessão de crédito comercial, por meio de prazos de pagamento e limites de crédito maiores, passando por linhas de capital de giro, ‘buy now, pay later’ (BNPL), seguro de crédito, entre outros produtos.

Em outra frente, a CashU oferece uma plataforma para FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). A startup diz ter analisado mais de 12 bilhões de transações e mais de 50 mil empresas. “No nicho de FIDCs multicedentes e multissacados, 5 dos 10 maiores já são nossos clientes”, conta Thiago.

Competição

Entre os players com modelos de negócio semelhantes ao da CashU estão a Trademaster, fintech especializada em soluções financeiras e de crédito B2B, que passou a fornecer serviços adicionais de inteligência de dados, conforme contou recentemente para mim Francisco Pereira, o CEO, em entrevista para o Valor. Para 2022, a fintech prevê novos produtos e serviços para a base de mais de 700 mil varejistas que utilizam a plataforma.

Outro competidor conhecido é a Supplier, fintech comprada em 2019 pela Totvs por R$ 455 milhões. A vertical de techfin — como é chamada a dimensão onde a Supplier está inserida — é uma das que mais crescem na empresa de tecnologia. No terceiro trimestre, a produção de crédito da Supplier bateu recorde de R$ 2,7 bilhões, alta de 51% na comparação anual.

A diferença entre a CashU e as demais é que a fintech optou por iniciar sua trajetória com a solução de análise de crédito. “Quebramos o produto e fornecemos a solução para que a empresa B2B tenha inteligência de crédito dentro de casa”, explica Thiago. Para o funding, o cliente pode optar pelo parceiro indicado pela CashU — a CreditCorp — ou buscar outro.

>>>> Assista ao webinar do Finsiders “Como as instituições financeiras podem melhorar a experiência do cliente B2B”.


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